Quanto às semelhanças das técnicas, à mecânica dos movimentos, também não é necessário que se veja nessas semelhanças algo de extraordinário. Na área da Antropologia Cultural existem teorias científicas que podem perfeitamente explicar essas coincidências. Uma dessas teorias é defendida pela escola dita "difusionista". Defende essa escola que através do que designa "Centros motores" - que poderá ser uma instituição, uma cidade, uma região, um país - um dado conhecimento pode chegar a áreas mais vastas e distantes através daquilo que é designado de "difusão".
A Índia, é actualmente ponto pacifico entre muitos investigadores, funcionou como um entreposto, uma plataforma giratória, recebendo e difundindo aquilo que são hoje as artes marciais, e não só as do extremo oriente.
A arqueologia prova-nos que já se praticavam artes marciais na Índia há pelo menos 5.000 anos. Outras provas demonstram, também, que o antigo império romano mantinha relações comerciais com a India há mais de 2.000 anos e que terá levado para a Índia as técnicas de luta.
As técnicas e os golpes do "pancrácio", arte marcial da Grécia clássica, confundir-se-íam hoje com o moderno MMA (Mix Martial Arts), uma mistura de técnicas de combate onde predominam as do boxe, do ju-jutsu e as do muay-thai.
As artes marciais terão chegado ao Japão a partir da Índia, passando pela China e pela Coreia. A este propósito poderá ter algum interesse referir o caso da palavra "karate". Por norma, esta palavra traduz-se por "mão vazia", traduzindo-se "kara" por vazio e "te" por mão. Porém existe uma outra interpretação para o kanji "kara" tal como se escrevia na dinastia Tang, neste período o kanji de "kara" podia-se traduzir por "chinês". Neste contexto, a palavra "karate" significaria "mão chinesa", donde, poderíamos concluir que o karate japonês não seria mais do que uma arte marcial de origem chinesa.
Voltando de novo às explicações teóricas, uma outra escola, a do "paralelismo", admite que dois povos afastados no espaço, sem contacto entre si, mas a viverem idênticas realidades poderão chegar a uma mesma solução para um dado problema. De certo modo, e tal como comentou o sensei Manuel Galrinho, 6º Dan de Aikido e director técnico da escola Deaikai - Associação de Aikido do Sul, num comentário a respeito deste mesmo assunto, mas num outro foro, não há muitas maneiras de agarrar num braço ou num pulso de um individuo. Mais tarde ou mais cedo todos acabarão por chegar à conclusão que a melhor maneira de realizar uma dada tarefa é "daquela" maneira e não de outra. A imagem que ilustra o início deste texto poderá ser um bom exemplo dessa tese.
Bibliografia:
"Introdução à Antropologia Cultural", Augusto Mesquitela Lima, Benito Martinez e João Lopes Filho, Ed. Presença, Lisboa, Portugal
"Karatê-do: O meu modo de vida", Gichin Funakoshi (trad. Euclides Luiz Calloni), Ed. Cultrix, S. Paulo, Brasil

